sexta-feira, novembro 13

Sandrão

Os meus dias têm passado como fotocópias - uns iguais aos outros. Tirando um ou outro afazer, pouco ou nada difere.

Todos os dias vejo as mesmas pessoas, tenho as mesmas conversas. A minha distracção, ou por outra, aquilo que me tem posto a rir, têm sido as visitas do Sandrão à minha humilde taberna.

O Sandrão é um brasileiro com nada mais, nada menos, que 2.05m de altura. Rondará os 27, 28 anos e ganha a vida como tratador de cães. Foi precisamente por isso, que o conheci.

Certo dia, ia eu a caminho do meu carro, quando avisto estacionada ao lado do meu, uma carrinha cheia de cães. A guardar a sua porta estava um são bernardo que só nas duas patas traseiras pesa mais que eu por inteiro. Lá dentro, estava ainda um pit bull. Medricas como sou, fiz uma curva de 180º graus para evitar o confronto com o bicho. O Sandrão - que observava ao longe, vê esta cena e resolve "atiçar" o cão que segurava nas mãos, para cima da menina de verde - euzinha. Mordi o isco, entabelou-se conversa.

Mestre e doutourado na arte do engate, o Sandrão conseguiu ludibriar-me numa conversa banalíssima e super inocente, acerca de cães e respectivos comportamentos, fazendo-me perguntas como: "tens cães", para passar para questões bem mais directas e já nada inocentes, como: "porque é que nunca te vi antes", "como é que te chamas" e "como é que faço para te ver outra vez". Touché!

Acho que ri e gaguejei ao mesmo tempo. Nunca vi tamanha manha. E de forma meio inconsequente - pensei eu, recomendei-lhe que visitasse o café mais abaixo, que de vez em quando andaria por lá. Ele não se fez rogado. Tem cumprido, e ultimamente, quase todos os dias lá vai. É que para piorar - e como o mundo é uma alface, o dito é super amigo das manas que lá tenho a trabalhar. Mesmo a calhar.

De súbito, a mana mais velha apressa-se a avisar-me que aquilo é chave de cadeia! Mulherengo que só visto. E a ele, que tire daí o cavalinho que já tenho dono e estou bem coprometida. Ele resigna-se, que remédio. Tudo na paz. Mas não deixa de lá ir, e suspira-lhes - a elas, às manas que sou tão lindaaaaaa, que sou tão perfeitinhaaaaa.

Coitado, tem uns olhos lindos, mas é pitosga que só ele.

De qualquer forma, bem hajas Sandrão, por me fazeres rir e sorrir!

quarta-feira, novembro 11

Surrealismo, s.m.
Discutir, à mesa de jantar, entre uma garfada de bolo e uma sorvidela de vinho, pipis e respectivas formas de depilação com a sogra.

Esquecimento, s.m. derivação masculina singular de esquecer.
Vamos mas é esquecer isto tudo.

domingo, outubro 25

Viver com o meu pai, trabalhar com ele e ter de simultaneamente lavar-lhe as cuecas, está a pôr-me doida!!

quinta-feira, outubro 22

e é isto. sem um aviso prévio ou um bilhete postal, as pessoas morrem sem sequer se despedirem.
haverão
queijadas de cenoura com chocolate para onde ele foi?

sexta-feira, outubro 9

Pronto...

já me sinto muito melhor! obrigado zara, stradivarius e berska, ou vá, já que estou nisto, obrigada inditex!

quinta-feira, outubro 1

Emanuel

Trato-o por você. "Bom dia, diga." E ele também não se descai. "Um café".
Hoje, ao devolver-lhe o troco, a sua mão sapuda roçou na minha. Era macia.
O Emanuel foi meu vizinho. É um homem não bonito, mas talvez exagere se disser que é feio. Nunca gostei dele. Achava-o parvo. Muito parvo. E herdou dos pais a antipatia congénita. Terá pelo menos mais uns 7 anos que eu. Talvez mais. Acho que tem uma filha. Nunca vi. E namora uma brasileira.
Tem a mania de se sentar ao balcão. Fica ali pertinho. Mesmo quando vai buscar o jornal do dia para ler. Irrita-me.
Volta não volta, resolve chegar mesmo quando decido ir tomar o pequeno almoço, e senta-se frente à minha caneca de capuccino que fumega no mesmo compasso em que o meu estômago ronca. E o cretino ali, demorando-se.
Ás vezes, só para o destabilizar tenho vontade de lhe dizer:" escuta lá, sabes que a tua foi a primeira pila que vi?" E foi. Estávamos todos cá fora a brincar. O Emanuel trazia uns calçoes brancos. Armado ao pingarelho resolve empoleirar-se no muro. Preguiçoso, nem vestira cuecas. A dita esgueirou-se para fora, como que a espreitar o mundo.
Aos cinco anos de idade fui confrontada com aquela visão horrorosa. Primeiro ri-me - como os outros, perante o espectáculo de marionetes forçado. Mas lembro-me bem: achei-a feia. Pedaço de carne mal amanhado. Depois fiz um esgar de nojo pior ao que fazia sempre que a minha mãe me dava grão cozido ao almoço. Com bacalhau.
Entretanto, cresci. E algumas coisas mudaram.
O Emanuel, nem por isso.